A figura do homo sacer* e da morte
roubada comparecem, no século XX nos campos de concentração e invadem o nosso tempo. Assim, a partir dos campos, se estabelece uma autoridade
absoluta sobre a vida e sobre a morte. Celan, em versos, fala deste terror no poema “Fuga da morte”. Cito um verso, no qual o poeta escava, desde este corpo sem lugar: cavamos uma sepultura nos ares lá não se fica apertado. O que resta ao homem é um túmulo no ar, sem direito ao repouso da terra.
A linguagem que surge para falar deste horror inenarrável, a partir dos poemas de Celan, é uma linguagem cinzenta, sem esperanças,
baseada na memória do fogo, na palavra que renasce de suas cinzas para voltar a arder. O poeta, a
partir de seu testemunho, busca restituir pela palavra, a figura roubada da morte.
No artigo “Paul Celan ou la passion du réel”, Fernand Cambon diz, indo contra a famosa frase de Adorno, a saber, que seria bárbaro escrever poemas depois de Auschwitz, que, ao contrário, a poesia seria a forma de linguagem mais adequada para sustentar uma tarefa marcada pelo impossível. Em Celan, segundo Cambon, o real do ato poético é uma resposta ao real do acontecimento sem resposta de Auschwitz. Real aqui pensado como sendo uma dimensão do impossível, real sem lugar de ser.
A escrita de Paul Celan parte deste encontro do real, na medida em que os
acontecimentos que permeiam sua poética, por exemplo, Auschwitz, tocam em questões impossíveis de simbolizar.
O real, na poética de Celan, está sendo pensado como algo da ordem do
impensável. Os acontecimentos dos campos de concentração também são da ordem do impensável. Só podemos avaliar esses acontecimentos pensando-os articulados em uma composição do real. Nesta composição percebemos uma constelação de
elementos chamados a constituir a realidade cuja ‘matriz’ permanecerá para sempre fora do domínio da expressão (Marie- Claude Lambotte). Este real é algo que se dá, sem mediação, e que continua o efeito traumático do que ficou fora da simbolização. Não há
nenhum tipo de expressão que possa nomeá-lo, e não há como circunscrevê-lo e manejá-lo. Ele é inimaginável e inapreensível. Podemos, então, pensar o real como um movimento de travessia que conduz o sujeito, à sua
revelia, para onde ele não tem mais nenhum meio de reagir, a não ser na precipitação da imagem ou da palavra que cai brutalmente numa espécie de evidência
delirante (Lambotte).
A partir de Lacan, podemos considerar que a escrita opera às voltas com o impossível, trazendo a questão da destituição do ser, se
interrogando sobre o próprio movimento de escrever. Ao romper com a questão do ser, a saber: a tradição, a ordem, a certeza, a verdade e toda forma de enraizamento, a escrita literária traz em si
a interrogação do desejo e encontra sempre um impossível. A tarefa poética de Paul Celan toca o impossível, na medida em que sua poesia procura reduzir a
imagem à pura percepção, isto é, na medida em que ela procura esvaziar ou escavar a imagem (Philippe Lacoue-Labarthe).
O caráter não metafórico da poesia de Celan nos fala de seu trabalho para simbolizar o insimbolizável (Martine Broda), trabalho onde um sujeito descobre na língua o ‘ponto de poesia’ a partir do qual, do impossível algo possa se inscrever. Há, então, também, um movimento de esvaziamento do sujeito
que escava seu próprio vazio. O vazio escavado pelo poeta, repleto de real, encontra esse “ponto de poesia” para trazer à tona um poema.
Celan inventa uma poesia que caminha em direção ao caos das metáforas – uma poesia sem
imagens e sem metáforas, à altura desta não-metáfora absoluta que é Auschwitz, do infigurável da morte. O poeta trabalha em um desenraizamento da
língua, além do “canto”, próximo da morte. Ouçamos a sua voz:
FALAR COM OS BECOS sem
saída
ali defronte,
da sua
expatriada
significação – :
mastigar
este pão,
com
dentes de
escrita.
Os dentes de escrita remetem à escrita, ela mesma, enquanto possibilidade de dizer alguma coisa ainda, apesar da condição do poeta ser
a de um expatriado.
Do exílio à escrita, em um caminho de tristeza insuperável. Como falar com
os becos sem saída? Como suportar o exílio, esta fratura incurável? (Edward Said)
A resposta vem nas palavras enigmáticas do poeta:
o tempo luta com tenacidade contra aqueles que
ousam ser humanos – é o tempo do anti-humano. Vivos, nós estamos mortos, nós também. Não há o céu da Provence; há a terra, aberta, sem hospitalidade; só há isso. Não há consolo, não há palavras.
O pensamento – este é um caso de dentes. Uma palavra simples que eu escrevo: coração. Um caminho simples: aquele.
(* ver texto “Vida nua”).
02 de julho de2008